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11/04/2019 10:15

Servidores, privatizações, relação com Beto Richa: após 100 dias de gestão, o que pensa o governador Ratinho Junior

Servidores, privatizações, relação com Beto Richa: após 100 dias de gestão, o que pensa o governador Ratinho Junior

Confira trechos da entrevista do governador Ratinho Junior à Gazeta do Povo e clique aqui para ler o conteúdo na íntegra.

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O governo encaminhou para a Alep um projeto que acaba com a aposentadoria para ex-governadores do estado. A ex-governadora Cida Borghetti (PP) requereu o benefício em janeiro. O governo irá conceder?

Eu deixei muito claro que eu sou contra. Não é correto, em um país em que as pessoas se aposentam com R$ 800, R$ 1 mil, trabalhando por 35 anos, que alguém fique 4, 6 meses e se aposente para o resto da vida com R$ 33 mil, que é o salário de governador. Não estou falando do caso específico da ex-governadora, mas sim como um todo. Nós vamos deixar a Assembleia Legislativa discutir esse assunto. Eu acho que vai ter a aprovação. Tem até uma discussão sobre se seria retroativo ou não. Eu defendo que seja. Acho que, se nós não dermos o exemplo, não temos como passar por uma Reforma da Previdência, por exemplo. Nós temos que acabar com os privilégios, e não só de políticos: de juízes, promotores, militares. Tem que ser repensado. Se isso não acontecer, como você vai cobrar a realização de uma Reforma da Previdência que pode dificultar a vida das pessoas mais humildes?

Os servidores do Executivo estão sem reajuste desde 2015. Segundo a APP-Sindicato, a defasagem dos salários já está em 16,4%. Ao mesmo tempo, o governo divulgou que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) já advertiu o Executivo sobre o excesso de gastos com pessoal. O governo vai conceder reajuste em 2019?

É importante primeiro reconhecer esse sacrifício que os servidores estão fazendo já há alguns anos. Mas também é importante que todo mundo saiba que o país passa por uma crise, e o Paraná não está fora dela. Tudo que nós estamos fazendo para economizar é para que no Paraná – e eu falo isso com muita cautela – não aconteça o que houve com os nossos colegas do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais ou do Rio de Janeiro. Esse é o meu maior desafio, fazer com que o Paraná mantenha suas contas públicas equilibradas.

Eu posso dar o reajuste neste ano e no ano que vem as pessoas não receberem o salário. Tem que ter essa consciência. Posso dar uma de bonzinho agora e, no ano que vem, acontecer de muitos não receberem o salário ou a aposentadoria. Eu prefiro que a gente faça um esforço agora no começo – não só o governo, a sociedade e os servidores também. Prefiro que a gente faça um trabalho para poder pagar ao menos uma parte do 13º em junho, para dar a garantia de que vai ter o salário em dia e poder ir avançando em outras áreas, do que chegar e dar um reajuste para o servidor, dar uma de bonzinho e colocar as contas do Paraná em risco.

O que a gente tem buscado é negociar com o sindicato, dizendo “olha, vamos fazer um esforço no primeiro ano de governo, em que é muito difícil até você colocar a casa em ordem, e no ano que vem a gente consegue trabalhar pra 1,5%, 2%, 3,5%”. Vamos trabalhar com o cheiro da economia melhorando, para que o ajuste que estamos fazendo possa trazer resultados. O enxugamento da máquina pública não tem resultado em 90 dias, mas em um ano e meio, dois, quando isso começa a sobrar no caixa. A ideia é passar essa consciência para a população, de que esse esforço não é do governo, é de todos. Pedir para que os servidores compreendam essa necessidade, o nosso esforço para que tudo esteja em dia, inclusive o salário deles, para que no ano que vem a gente não tenha nenhum susto.

Outro ponto é que nós já estamos no limite prudencial. Quem fala isso não sou eu, é o TCE. Se passarmos do limite prudencial, a gente fica negativado. Passamos a ser um estado mal visto pelo governo federal em termos de contas públicas. Então tudo se perde: os empréstimos que nós estamos trabalhando para conseguir, para fazer as obras que são necessárias para o estado, os convênios. Nós não podemos abrir mão disso. Veja, nós temos que contratar 2 mil policiais, 150 pessoas para o Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Isso tudo impacta na folha.

Vamos ajustar a casa, primeiro. Além de ser direito, eu acho que é importante um incentivo financeiro para os servidores. Mas eu não posso ser irresponsável. Nós temos rodovias a serem feitas, tem gente morrendo. Tudo isso é dinheiro. Temos que organizar e priorizar para que o estado esteja equilibrado acima de tudo e para que não tenha sustos, como aconteceu com outros governos que fizeram demagogia em cima de salários e acabaram quebrando.

Recentemente, o jornalista Rogério Galindo, do Plural, noticiou que o governo estaria cogitando retirar o direito à licença-prêmio como uma espécie de compensação para dar o reajuste. Esse é o plano da gestão?

Nós vamos conversar com o sindicato. A ideia não é tirar o que é direito adquirido, mas sim evitar isso para os servidores que entrarem daqui pra frente. Se você perguntar para qualquer cidadão comum se ele acha que é normal a pessoa trabalhar cinco anos e, além do que ela já tem direito natural, ter mais 90 dias de férias remuneradas, ninguém acha normal. Não é normal para qualquer trabalhador comum. São benefícios que foram sendo dados de forma demagógica. Mas também não acho que eu tenha o direito de prejudicar os que já têm a licença. O que eu acho é que, daqui para frente, a gente tem que repensar todo esse sistema.

Veja, se nós não pensarmos a máquina pública, nós vamos falir. Já estamos falindo, na verdade. O país já está falido, tanto que está aí rastejando e não consegue fazer absolutamente nada. A sociedade tem que ter essa consciência, é um esforço de todos, e não de um governo. A folha de pagamento do Paraná era de R$ 10 bilhões em 2010. Hoje, é de R$ 32 bilhões. Alguma coisa está errada. Houve exageros. Esse equilíbrio, que não é fácil, é o que nós temos que atingir.

Ultimamente não temos ouvido isso nas falas do senhor. A pergunta é: quanto o senhor acha que deve a Beto Richa pelo governo que recebeu hoje? Como vê as operações em que o ex-governador é investigado e como está sua relação com o tucano?

 

Relação com ele eu não tenho desde que eu deixei de ser secretário. Mas eu respeito, foi governador, fui secretário dele, tive uma grande oportunidade. Se houve erros, eu obviamente não estou aqui para julgar. Mas, se comprovadamente aconteceu, ele tem que pagar. Qualquer um tem que pagar. Eu vejo que ele teve muita coragem em fazer esse ajuste fiscal. E até fez porque nós estávamos pior que o Rio Grande do Sul. Se não tivesse feito, nós estaríamos pior agora. Houve um esforço da sociedade, do servidor público, dos empresários que tiveram que pagar o aumento de impostos. Houve um esforço da Assembleia Legislativa, que foi corajosa em fazer isso acontecer. Agora, foi um conserto do que o próprio governo dele acabou gerando. Ele aumentou a folha demais. Depois, o estado não conseguiu dar conta na crise. E você não tem como diminuir a folha. Você deu a folha, tem que pagar, tendo a economia crescido 3% ou se retraído 5%.

Há alguma outra coisa que o senhor considera que recebeu em uma boa situação dos governos anteriores?

Nós não recebemos as finanças em boa situação. Recebemos em equilíbrio. Nós recebemos janeiro com R$ 250 milhões em caixa. Isso, tendo que dividir com os outros poderes, não é nada. Agora, se eu olhar para os meus vizinhos, tenho que agradecer porque o estado está equilibrado. Não temos sobrando para investir, mas também não estamos quebrados a ponto de não pagar. Esse equilíbrio que nós temos que manter. Se nós não mantivermos, vai fazer mal para a sociedade. Temos que aproveitar que o estado está organizado do ponto de vista financeiro e começar a crescer. Quando o estado está bem visto perante o setor privado, você começa a ter mais investimento, que gera mais emprego e aumento de consumo. O que gera mais ICMS, faz entrar mais dinheiro em caixa. Nós não podemos perder isso.

Agora falando de Segurança Pública. Em março veio a público o caso de um feminicídio que ocorreu por causa de uma falha no atendimento da Polícia Militar no Paraná. Que medidas foram tomadas desde então para que casos semelhantes não aconteçam?

Esse caso específico aconteceu no dia 12 de janeiro. Fazia 10 dias que nós estávamos no governo. Obviamente, uma mudança importante não pode ser feita nesse período tão curto. Nós vamos fazer um balanço da apresentação da Secretaria de Segurança Pública, que tem dados muito positivos. Um deles é de que só em Curitiba houve redução de 37% no número de homicídios. Historicamente, nunca houve um trimestre com ganho de eficiência tão grande. Nós assumimos o governo com 40% da frota de viaturas em oficinas. Boa parte delas ainda está no conserto. Estamos agora buscando mecanismos para melhorar essa eficiência. Uma parte alugando carros, uma parte vendendo e comprando carros mais novos. Mas tudo isso passa por um processo financeiro. Vamos anunciar uma economia grande na área de aluguéis de delegacias ainda neste ano. Estamos renegociando os contratos de marmitas dos presídios para diminuir o custo.

O senhor tem ido com frequência a Brasília. Como está a relação com o presidente Jair Bolsonaro?

Eu tenho ido muito a Brasília porque eu acho que foi um erro histórico do Paraná não ter aproveitado seu peso político econômico perante o país para impor alguns retornos para o estado. Sempre usamos muito pouco nossa bancada federal, os nossos senadores. Tenho buscado construir essa união. Um exemplo é de que há 30 anos os três senadores não almoçavam com o governador, não faziam uma agenda política em defesa do estado. Nós estamos fazendo isso periodicamente com os senadores e com a bancada. Tenho ido muito para falar com os ministros e mostrar o que temos de projetos. A ideia é fazer com que o Paraná seja um estado protagonista nacional. O Paraná sempre foi muito tímido. Estamos mostrando o tamanho do Paraná, algo que - talvez por uma questão de visão estratégica - não era feito.

Como o senhor vê o desempenho do governo Bolsonaro, em especial na articulação para aprovar a Reforma da Previdência?

Eu acho que há dificuldades, como em qualquer início de governo. Ele tem uma personalidade muito forte e isso talvez acabe ganhando escala pela forma como ele conduz as coisas. Mas o governo tem mostrado ser sério, com uma equipe muito boa. Os ministros conhecem o mercado, as pastas, sabem do que estão falando. Tem que dar tempo para as coisas andarem. O Brasil é um grande navio. Você não muda o navio de posicionamento em 90 dias. Isso é um processo até cultural, a máquina é demorada.

Temos o desafio da previdência, que tem que ser aprovada. É uma questão de sobrevivência não do governo, mas da sociedade. Se não aprovar, tudo que estamos prospectando de investimentos para o Brasil vai embora. Nós temos que fazer a lição de casa. Claro, eu acho que também não deve prejudicar as pessoas mais humildes. Tem que dar o exemplo cortando dos que têm privilégios.

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